domingo, 27 de março de 2016

RESSURREIÇÃO- PRISIONEIRO

 RESSURREIÇÃO
Prisioneiro


A carruagem feita de grades cruzava as ruas de pedra de Esmirna
 e o prisioneiro podia ouvir os gritos da furiosa multidão
que estava na arena. Cães farejadores seguiam o carro pelas ruas,
latindo violentamente. Crianças de pele cor de oliva corriam
pelas calçadas, com os olhos cheios de ansiedade. Ao longo do
caminho, rostos sem nome paravam para espiar pela janela.
A carruagem se deteve diante dos sólidos muros da arena. O
guarda arrancou o prisioneiro do veículo e o lançou bruscamente
ao chão, como se fosse um saco de lixo, machucando sua perna.
Há semanas o público vinha pedindo a prisão e execução da-
quele homem. Mas ele não se parecia em nada com um crimi-
noso — um homem idoso e de aparência frágil, com o rosto
marcado pelas rugas. Tinha cabelos e barba tão brancos quanto
as nuvens que enfeitavam o céu mediterrâneo naquela tarde.
Enquanto o velho prisioneiro mancava até a arena sob a vigi-
lância de guardas armados, espalhou-se pela multidão a notícia
de que aquele homem era Policarpo, o criminoso vil que tinha
sido sentenciado à morte. Seu crime? Ele era o líder local de um
ritual supersticioso praticado por um grupo conhecido como
“os cristãos”.
A multidão gritava com sede de sangue, enquanto os soldados
levavam o prisioneiro para se apresentar diante do procônsul
romano. Quando ele viu o velho mancando, corou de vergonha.
Então aquele era o grande criminoso que havia causado tanto
tumulto? Apenas um pobre velhinho?
O procônsul usava uma túnica cor de púrpura, que balança-
va com o vento. Ele se aproximou do velhinho e lhe disse em
particular:
— O governo romano não faz guerra contra idosos. Simples-
mente jure pela divindade de César e deixarei você ir.
— Não posso fazer isso.
— Então, ao menos grite: “Acabem com os ateus!” E isso
será suficiente.
Ele disse isso porque muitos romanos acreditavam que os
cristãos eram ateus, já que eles não tinham templos nem adora-
vam imagens.
O prisioneiro calmamente esticou seu braço enrugado, virou-
-se e apontou para a multidão cheia de ódio. Então, olhando
fixamente para os céus, gritou:
— Acabem com os ateus!
A reação do prisioneiro surpreendeu o procônsul. Apesar de o
velhote ter feito o que lhe fora pedido, o governador percebeu,
pela reação da multidão, que a libertação de Policarpo estava
fora de cogitação.

Amaldiçoe a Jesus Cristo! — Exigiu ele.
Por um instante, Policarpo fixou seus penetrantes olhos cas-
tanhos no semblante inflexível do procônsul. Então, respondeu
calmamente:
— Durante oitenta e seis anos tenho servido a Jesus e Ele
nunca foi injusto comigo. Como, então, poderia eu amaldiçoar
meu Rei e Salvador?
A multidão, incapaz de ouvir a conversa, estava ficando im-
paciente com a demora. O procônsul já estava ficando ansioso e
pediu novamente ao prisioneiro:
— Jure pela divindade de César!
— Já que o senhor continua fingindo não saber o que eu sou,
vou simplificar sua tarefa. Declaro, sem nenhuma vergonha, que
sou um cristão. Se o senhor quiser aprender um pouco sobre as
nossas crenças, marque um horário e eu lhe ensinarei.
O procônsul ficou muito irritado e respondeu bruscamente:
— Não tente me convencer, convença a eles !
— Disse apontando para a multidão.
Policarpo olhou para os inúmeros rostos desconhecidos, que
ansiavam pelo espetáculo sanguinolento a que vieram assistir.
— Não, não vou rebaixar os ensinamentos de Jesus tentando
convencer essa gente!
O procônsul já muito irado, gritou:
—Você não sabe que tenho animais selvagens a minha dispo-
sição? Vou soltá-los imediatamente se você não se arrepender!
— Bem, então solte! — Respondeu Policarpo, sem qualquer
vestígio de medo na voz. — Como eu poderia me arrepender de
fazer o bem para fazer o mal?
O procônsul estava acostumado a amedrontar até os crimino-
sos mais perigosos, mas não estava conseguindo assustar aquele
velhote.
Então replicou:
— Já que os animais selvagens não lhe assustam, saiba que você
será queimado vivo se não renunciar a Jesus Cristo imediatamente!
Cheio do Espírito Santo, Policarpo irradiava alegria e confiança.
— O senhor me ameaça com um simples fogo que queima por
uma hora e depois se apaga. Nunca ouviu falar do fogo do julga-
mento vindouro e do castigo eterno reservados para os ímpios?
Por que está demorando tanto? Faça logo o que quiser comigo!
As coisas não saíram como o planejado. O procônsul deveria
ser o grande vencedor e o prisioneiro deveria estar ajoelhado,
implorando por misericórdia. Mas aquele prisioneiro, um ido-
so, havia vencido. O governador voltou ao seu assento, sentin-
do-se humilhado.
Como a arena era muito grande, alguns mensageiros foram
enviados a pontos específicos para anunciar o que Policarpo
havia dito. Quando repetiram o que ele havia declarado, uma
onda de fúria tomou conta da multidão. Fariam com ele o que
eles quisessem!
Pularam de seus assentos e correram pelas saídas e corredo-
res, clamando pela morte de Policarpo. Corriam como loucos
pelas ruas da cidade, juntando todos os pedaços de madeira que
pudessem encontrar. Assaltaram alguns estabelecimentos e rou-
baram até a lenha acumulada nos banheiros públicos. Então,
voltaram apressados para a arena, com os braços cheios de lenha
para a pira que o carrasco estava preparando. Eles empilharam
a madeira em volta de uma estaca, onde os soldados amarravam
os membros de Policarpo.
Mas Policarpo dizia calmamente aos soldados:
— Deixem-me como estou. Aquele que me dá força para su-
portar o fogo também me dará capacidade para ficar imóvel na
fogueira sem que precisem me amarrar.
Depois de permitir que Policarpo orasse, os soldados atearam
fogo à pira.
O povo de Esmirna acreditava que depois de queimar Policar-
po apagaria seu nome da história, dando um fim àquela odiada
superstição chamada cristianismo. Mas assim como o procôn-
sul, eles subestimaram a vitalidade e a convicção dos cristãos.
Pois em vez de intimidar os outros cristãos, a morte de Policarpo lhes trouxe inspiração. E em vez de desaparecer, o cristianismo
cresceu ainda mais.


Ironicamente, o que os romanos não conseguiram fazer aca-
bou sendo realizado pelos próprios cristãos. Hoje, pode-se dizer
que o nome de Policarpo foi esquecido e que o cristianismo de
seus dias é desconhecido para a maioria dos ocidentais.

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